Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Achados no baú (7)

 

As melhores experiências da fruição ao vivo do jazz são aquelas que contrariam, no melhor sentido, expectativas antecipadamente criadas, quer por se tratar de um grupo há muito conhecido quer por seguir de perto um dado repertório recentemente gravado e que, como passou a ser hábito, é a razão de ser de um concerto.

Foi de um exemplo destes que me lembrei, ao procurar no meu baú alguma coisa que vos pudesse dar uma ideia deste tipo de felizes ocorrências. E encontrei-o nesta crónica que, publicada numa época em que com mais regularidade se tratava de jazz no Diário de Notícias  (bons tempos!), então tive o gosto de escrever para a edição de 30.11.98.

Como quem não quer a coisa... já lá vão 10 anos!

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Com um sorriso nos lábios

                                                       

Confesso a minha embirração incurável quando me preparo para assistir a um concerto de jazz que, à partida, já tem menu escolhido – sobretudo se, ainda por cima, ele é anunciado como vindo antecipadamente sujeito a mote.
  
O certo é que aquilo que se anunciava como sendo um concerto incluído na tournée de promoção do último álbum de Herbie Hancock dedicado a Gershwin  [Nota: Gershwin's World, 1998], iria resultar em algo bem diverso:  um único set sem intervalo que, até mesmo talvez à revelia das cábulas que o pianista trazia consigo, se foi organizando em progresso, quem sabe se em função da boa disposição que uma excelente refeição traz sempre consigo...
                                  
 
Foi assim, com um sorriso nos lábios, que Hancock se sentou ao piano, para um concerto que se afastou por completo do que estava previsto. E, no entanto, as coisas não começaram por correr da melhor maneira. O turbilhão de fundo que afligiu logo de início a captação sonora do primeiro tema do concerto  – New York Minute –  fazia recear o pior. Talvez porque geralmente associado ao circuito dos grandes grupos de rock (!), o próprio aparato tecnológico que ladeava o quarteto de Hancock não deixava em si mesmo de ser agressivo, pela sua presença estentórica e supérflua.
 
E iria revelar-se totalmente desprovida de utilidade a dose cavalar de decibéis debitados por um PA tonitruante que, se colocado a meio-gás, melhor teria servido uma música essencialmente acústica que se mostrava aos primeiros instantes primar pela subtileza e muito ganharia em ter-nos sido devolvida com a maior das transparências.
 
Ultrapassados os receios iniciais, o concerto deslizaria, de tema em tema, num crescendo de agradáveis surpresas, tanto maiores quanto o repertório escolhido se apresentava como que submetido à lógica rentável dos clássicos e dos standards. E, aqui, não pude escapar a um segundo murro no estômago em que a presente temporada parece começar a mostrar-se fértil.
 
É que, à semelhança do que acontecera já com Antonio Hart no Festival de Jazz do Porto  [09.11.98], Herbie Hancock como que se ultrapassou ainda mais na sua já consabida arte de subverter, de forma ímpar, um material temático que surge ao ouvinte desprevenido como sendo «favas contadas»  –  mais uma vez desmentindo com fragor a ideia feita de que o cancioneiro norte-americano há muito já deu o que tinha para dar.
 
É verdade que, em segundo lugar, o pianista nos anunciou o conhecidíssimo
I Love You de Cole Porter. Mas, logo na exposição do tema, o espanto não deixaria de crescer à medida que os acordes da harmonia se encadeavam: uma harmonia que, de forma deliberada, de frase em frase, ia passando por três, quatro, cinco tonalidades diferentes!
 
E que dizer dos solos? Como conseguir encontrar pontos de segurança e apoio  (para aquilo que é conhecido quase de cor)  nas constantes modulações seguidas em estonteante encadeado por todos os músicos, quase que no mesmo instante em que eram sugeridas por um deles?
 
O mesmo se passaria logo a seguir, depois de uma longa divagação num afro 12/8, quando o quarteto passaria à exposição de Just One of Those Things  (também de Cole Porter!). Como não nos extasiarmos perante o permanente politonalismo assumido de princípio a fim por Hancock e seus companheiros?
 
Na realidade, os espectadores presentes na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, estavam a assistir à consumação de um flagrante delito, nos últimos tempos relativamente invulgar.
Ao contrário da burocrática mastigação dos standards que, com maior ou menor talento, nos é impingida por dezenas e dezenas de músicos ainda há pouco saídos da desmama e já lançados para as cadeias de produção em série dos estúdios de gravação, Herbie Hancock recordava-nos o que há muito sabe:  como é possível ao músico inserir-se numa dada estrutura temática para, ao mesmo tempo, de forma imperial e genial, a destruir por dentro, fazendo tábua rasa de todo e qualquer «efeito de reconhecimento»!
 
A própria integração neste quarteto do saxofonista Craig Handy, algo frio e escolástico de início mas crescentemente caloroso e afirmativo no decorrer do concerto, nos faria lembrar um outro antigo companheiro de lides de Hancock  – Wayne Shorter –  também ele mestre nesta arte de desconstrução formal e estrutural. Como foi patente nas magistrais e impulsivas improvisações de Handy  (nos saxofones soprano e tenor)  no clássico de Hancock Maiden Voyage ou, sobretudo, na derrotante versão de I Got it Bad de Stevie Wonder.
 
Como elemento menos positivo do quarteto, Gene Jackson pertence, de forma visível  (e audível), àquele número de bateristas cuja maturidade virá a aconselhar mais prudência na fogosidade com que ataca as peles dos tambores e faz faiscar os címbalos. Isto para que, à firme subtileza da percussão, se não substitua o esgotante pleonasmo rítmico. Em contrapartida, Kenny Davis mostrou-se seguro e inventivo no contrabaixo, sempre que Jackson e a reverberação sonora o deixaram ouvir-se com um mínimo de pureza e transparência.
 
A todas estas coisas boas teria a crítica assistido de esguelha, nas «doutorais laterais» que lhe estavam reservadas, se não se tivesse sorrateiramente transferido, em contraponto improvisado, para lugares mais frontais ao palco, olhos nos olhos com os próprios músicos, que é como o jazz deve ser encarado.

 
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:56
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